Pular para o conteúdo principal

A PERDA DE BELCHIOR, ÍCONE DA MPB SETENTISTA



Por Alexandre Figueiredo

A MPB anda envelhecendo e não há sangue novo que pudesse renovar com a mesma visceralidade das gerações mais antigas. Aos poucos estamos perdendo até as gerações de 1960 e 1970 e isso faz com que a música brasileira se tornasse cada vez mais acéfala, diante da supremacia quase totalitária do comercialismo brega-popularesco.

Ícone da geração 1970, Antônio Carlos Gomes Belchior, cujo nome artístico tornou-se apenas o último sobrenome, faleceu aos 71 anos incompletos - ele nasceu em 26 de outubro de 1946 - , depois de cerca de dez anos de vida aparentemente errante e misteriosa.

Belchior era um dos nomes da geração cearense que revelou também Ednardo (da música "Pavão Misterioso" e pai da estonteante atriz Joana Limaverde) e o hoje neoconservador Raimundo Fagner (ligado ao grupo de celebridades que apoiou Aécio Neves em 2014), uma geração que misturava lirismo modernista com rock e hippismo.

Nascido em Sobral, Belchior começou sua carreira em 1965 e divulgava suas canções participando de festivais universitários de música em Fortaleza. Sua fama nacional começou quando se mudou para o Rio de Janeiro em 1971 e se inscreveu no IV Festival Universitário da MPB, com sua composição "Na Hora do Almoço", defendida pelos cantores Jorge Melo e Jorge Teles.

Graças à divulgação da música "Na Hora do Almoço", Belchior foi contratado pelo selo Copacabana (hoje Universal Music) e gravou como intérprete da mesma composição, também em 1971. Iniciou sua carreira de sucesso com músicas de MPB influenciadas no rock e com citações de Beatles, como em "Medo de Avião", em que descreve "aquele toque beatle, 'I Wanna Hold Your Hand'".

Seus sucessos radiofônicos não foram muitos. O maior deles sob sua voz, "Apenas um Rapaz Latino-Americano", parece coincidir, em temática, aos versos de Caetano Veloso de "Alegria, Alegria" (1968), pois, enquanto esta descrevia o autor "caminhando contra o vento, sem lenço e sem documento", Belchior se descrevia como "um rapaz latino-americano sem dinheiro no banco, sem parentes importantes e vindo do interior".

Era, portanto, a realidade comum de jovens artistas do Nordeste, naquele período fértil da Música Popular Brasileira, de tentarem a vida no eixo Rio de Janeiro-São Paulo, como únicos meios de iniciar carreiras de projeção nacional.

O maior sucesso de todos é, porém, interpretado por Elis Regina, "Como Nossos Pais", em arranjo de blues. Belchior também gravou a canção mas ela é pouco famosa nesta versão. A música é muito ouvida e cantarolada pelos fãs, mas pouco compreendida, pois há o mal entendido de imaginar que a música fala bem dos jovens que são iguais a seus pais, mas na verdade a letra é uma crítica à acomodação da juventude pós-hippie no começo dos anos 1970.

Belchior teve músicas gravadas por outros intérpretes, como Jair Rodrigues, que interpretou "Galos, Noites e Quintais". Entre os anos 1980 e 1990, Belchior foi sócio de selos fonográficos independentes. Pela sua influência roqueira, o cantor cearense teve suas músicas divulgadas pelas rádios de rock Federal AM, na década de 1970, e Fluminense FM, na década de 1980.

Nos últimos dez anos, Belchior passou vários períodos em lugar ignorado. Estaria vivendo entre o Rio Grande do Sul e o Uruguai. De maneira misteriosa, não tinha um paradeiro fixo e rumores indicavam que ele estava cheio de dívidas. Seu falecimento, neste 30 de abril de 2017, foi diagnosticado como ruptura da artéria aorta.

Apesar de ser uma figura controversa e misteriosa, Belchior comoveu muitos fãs com sua morte. E sua perda é mais uma que deixa a MPB, que perde seus próprios espaços para o comercialismo do brega-popularesco (sobretudo "funk" e "sertanejo"), cada vez mais órfã, acentuando a crise que atinge a música brasileira nestes tempos movidos pelo conservadorismo político que desmonta as atividades sociais no Brasil.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

TV EXCELSIOR

TV Excelsior - A Criadora do Padrão Globo de Qualidade

Edson Rodrigues - Retro TV

Dez anos de criatividade que resultaram no desenvolvimento da televisão brasileira. Assim podemos definir a trajetória da TV Excelsior, Canal 9 de São Paulo. Mas, como tudo começou? E como tudo acabou?

O Início

Estamos em 1959 e a Organização Victor Costa - que já possuía a TV Paulista Canal 5 - ganha um novo canal de televisão. Naquela época era comum um mesmo dono ter mais de uma emissora. Antes mesmo de inaugurá-la, Mário Wallace Simonsen manifesta interesse em comprar os direitos sobre o novo canal. A família Simonsen era poderosa, possuía mais de 40 empresas (uma delas a aérea Panair) e estavam ansiosos por colocar no ar a TV Excelsior (nome este que veio da emissora de rádio, hoje a conhecida CBN). Os valores da venda são desencontrados, mas é sabido que a cifra foi a mais alta até então registrada.

A emissora instalou-se nos dois últimos andares de um prédio localizado na esquina da Avenida Paulista co…

O ESTADO DA GUANABARA

AEROFOTO DO FOTÓGRAFO DA REVISTA MANCHETE, CARLOS BOTELHO, PUBLICADA TAMBÉM NA ENCICLOPÉDIA DOS MUNICÍPIOS BRASILEIROS DO IBGE. A FOTO DATA DE 1956, QUANDO A NOVA CAPITAL, BRASÍLIA, COMEÇOU A SER CONSTRUÍDA, TRANSFORMANDO DEPOIS O ANTIGO DISTRITO FEDERAL NA GUANABARA.

Do portal WikipediaA Guanabara foi um estado do Brasil de 1960 a 1975, no território do atual município do Rio de Janeiro. A palavra guanabara tem sua origem no tupi guarani guaná-pará, e significa "o seio-mar".

HISTÓRIA

Em 1834, a cidade do Rio de Janeiro foi transformada no Município Neutro da Corte, permanecendo como capital do Império do Brasil, enquanto que Niterói passou a ser a capital da província do Rio de Janeiro. Em 1889, a cidade transformou-se em capital da República, o município neutro em distrito federal e a província em estado. Com a mudança da capital para Brasília, em 21 de abril de 1960, a cidade do Rio de Janeiro tornou-se o estado da Guanabara, de acordo com as disposições transitórias da Cons…

30 ANOS SEM KAREN CARPENTER

COMENTÁRIO DESTE BLOGUE: A cantora da dupla de irmãos Carpenters, a belíssima Karen Carpenter, faleceu no dia 04 de fevereiro de 1983. Talvez esta postagem pareça tardia, mas há exatos 30 anos a notícia do falecimento da cantora já estava espalhada pelos quatro cantos e repercutia mundialmente, causando tristeza profunda em todos os seus fãs.

Os Carpenters podem não ter sido musicalmente excepcionais, mas eram bastante talentosos, pelo talento de pianista de Richard Carpenter e da bela voz de Karen, que por sinal tinha uma beleza sexy que ela mesma não pôde prestar atenção, tão preocupada em se tornar magra que a fez vítima de anorexia nervosa. Pena, porque Karen era linda e desejadíssima mesmo "cheinha" e, se viva estivesse, continuaria belíssima, apenas adaptando suas feições para os 63 anos que poderia completar no próximo dia 02 de março.

Algumas curiosidades notáveis dos Carpenter: os irmãos chegaram a gravar cover da banda progressiva Klaatu e Karen era eventual bater…

ATRIZ ARACY CARDOSO MORRE NO RIO AOS 80 ANOS

COMENTÁRIO DESTE BLOGUE: Aracy Cardoso faleceu hoje, aos 86 anos - divulgado em informações recentes, e reproduzimos abaixo um artigo do jornal O Tempo apenas mudando essa informação, pois estava creditada a apenas 80 anos.

Aracy foi uma das mulheres mais bonitas de sua geração e também um dos grandes talentos na atuação, tendo começado no teatro, em 1952, em peças como Mulher de Outro Mundo, montada pelo grupo Teatro de Equipe.

Ela também foi casada com o ator e cineasta Ibanez Filho, falecido em 2006.

Atriz Aracy Cardoso morre no Rio aos 80 anos

Do Jornal O Tempo - Belo Horizonte, 26 de dezembro de 2017.

RIO DE JANEIRO. Morreu nesta terça-feira (26), no Rio de Janeiro, aos 80 anos, a atriz Aracy Cardoso. Ela era conhecida por participações em diversas novelas da Rede Globo, como “Fogo Sobre Terra” (1974), “De Corpo e Alma” (1992) e “Sol Nascente” (2017), seu último trabalho, no qual interpretou a personagem Dona Laís. Também ficou marcada pela personagem Zazá em “A Gata Comeu” (1985).

OS 70 ANOS DE RITA LEE

Por Alexandre Figueiredo

A cantora paulistana Rita Lee Jones teve como proeza ser uma das primeiras cantoras musicistas e compositoras a fazer sucesso e, também, ser uma das primeiras artistas envolvidas com rock psicodélico a ter o conhecimento e o reconhecimento do grande público.

Iniciando sua carreira em 1966, como integrante da banda O'Seis, o embrião dos Mutantes, numa época em que a maior cantora da Bossa Nova, Sylvia Telles, saía de cena prematuramente devido a uma tragédia automobilística, Rita Lee foi uma batalhadora musical num período em que os movimentos estudantis desafiavam a ditadura militar e ela, irritada, reagiu com a truculência institucional do AI-5.

Num país como o Brasil, em que Os Mutantes parecem tardios na carreira discográfica - seu primeiro álbum só foi lançado em 1968, talvez pela falta de visão da indústria fonográfica, pois a fase psicodélica dos Mutantes, entre 1968 e 1972, poderia ter sido registrada em disco com dois anos de antecedência - , Rita…

AOS 80 ANOS, JANE FONDA DIZ QUE NÃO ESPERAVA CHEGAR AOS 30

COMENTÁRIO DESTE BLOGUE: Com 80 anos e em atividade, a atriz Jane Fonda, uma das revelações de Hollywood no começo dos anos 1960, sendo mais conhecida então como a filha do astro Henry Fonda - e, depois, irmã de Peter Fonda, de Sem Destino (Easy Rider), este pai da também atriz Bridget Fonda - , não imaginava que sobreviveria aos 30 anos.

Era uma época em que atrizes faleceram precocemente por diversos incidentes - entre 1961-1962 o mundo perdeu a inglesa Belinda Lee e a estadunidense Marilyn Monroe - , e Jane, felizmente, seguiu sua vida não sem dificuldades, mas consolidando seu talento e seu carisma até hoje. Além de atriz, ela já gravou um vídeo de ginástica, escreveu livro e havia sido ativista política de esquerda,

Consagrando-se como "musa" no filme de ficção científica Barbarella, de 1968 e atualmente solteira depois de três casamentos - com o cineasta Roger Vadim, o político Tom Hayden e o empresário de Comunicação Ted Turner - , atualmente participa de seriados de…

PRIMEIRA TRANSMISSÃO DE TV A CORES NO BRASIL FAZ 40 ANOS

Por Alexandre Figueiredo

Hoje faz 40 anos em que se realizou a primeira transmissão televisiva a cores, a partir da TV Difusora de Porto Alegre (hoje TV Bandeirantes local) e a TV Rio (Guanabara, atual TV Record Rio). A TV Globo, do Rio de Janeiro, também participou da façanha.

O evento escolhido foi o desfile tradicional da Festa da Uva, na cidade gaúcha de Caxias do Sul. A foto em questão, aliás, mostra um ônibus "bicudinho" da Mercedes-Benz, provavelmente O-326, que a TV Rio enviou para o Sul do país.

Era tempos do "milagre brasileiro" da ditadura militar e prefeitos com algum senso de oportunismo instalaram aparelhos de TV pelas ruas da cidade para que a população visse a novidade. Aliás, foi assim que Assis Chateaubriand fez para atrair a multidão para a então recém-inaugurada televisão, em vários pontos-chave da cidade de São Paulo, em 18 de setembro de 1950. Em ambos os casos, eventuais falhas técnicas ocorreram.



Mas quem imaginasse que a televisão a cores era u…

CARLOS HEITOR CONY MORRE AOS 91 ANOS

COMENTÁRIO DESTE BLOGUE: Conservador moderado, embora polêmico, Carlos Heitor Cony foi um dos maiores escritores do Brasil dos últimos tempos. Tendo defendido o golpe militar de 1964, como jornalista e cronista do Correio da Manhã, pouco após a instalação da ditadura militar, ele passou para a oposição. O livro O Ato e o Fato de 1964 foi um dos primeiros livros lançados com críticas à ditadura militar.

Não se considerava esquerdista e, em 2016, apoiou a queda da presidenta Dilma Rousseff. Ainda assim, deixou uma importante trajetória como cronista, romancista, articulista e intelectual, e era um dos membros da Academia Brasileira de Letras.

Uma curiosidade é que, quando ele era coroinha de uma igreja em Vila Isabel, Zona Norte do Rio de Janeiro, ele constantemente passava perto de um bar onde estava um grupo de rapazes, entre eles o notável compositor e sambista Noel Rosa. Cony faria 92 anos em março.

Carlos Heitor Cony morre aos 91 anos

Do Portal G1

O jornalista e escritor Carlos Heito…

SBT DEMITIU MOACYR FRANCO, FIGURA HISTÓRICA DE NOSSA TELEVISÃO

Por Alexandre Figueiredo

O anúncio da demissão de Moacyr Franco do programa humorístico A Praça é Nossa, envolvido num processo de "enxugamento" do quadro de profissionais do SBT, revela a situação surreal de nosso país.

Moacyr Franco é um patrimônio da televisão brasileira e um dos remanescentes dos tempos áureos de nossa televisão que, apesar de analógica e mais precária, era bem mais criativa.

O irônico disso tudo é que o SBT é de propriedade de outra figura daqueles tempos, Señor Abravanel, o popular Sílvio Santos, hoje muito ranzinza e afinado com os tempos temerosos.

Enquanto Sílvio Santos começava a lançar seus programas, como o Vamos Brincar de Forca?, da TV Paulista (hoje TV Globo São Paulo) de 1961, Moacyr Franco se destacava como o Mendigo de Praça da Alegria, personagem que lançou em 1959.

Sabe-se que a Praça da Alegria era um programa feito pelo humorista Manuel da Nóbrega, pai de Carlos Alberto da Nóbrega, também ativo na época e hoje apresentador do A Praça é…

"MINDUIM" COMEMORA 60 ANOS

A Turma do Charlie Brown comemora 60 anos de publicação. Suas histórias ora eram dotadas de humor sarcástico, ora eram cheias de profundo lirismo, e toda essa obra foi produzida desde 02 de outubro de 1950, quando foi lançada a primeira tira, até 13 de fevereiro de 2000, um dia após o falecimento de seu autor, Charles M. Schulz.

Conhecido como Sparky desde a infância, Schulz, na verdade, havia criado um embrião da Turma do Charlie Brown, chamado Lil'Folks, onde já se via o personagem Charlie Brown e um cachorro com as caraterísticas semelhantes ao Snoopy das primeiras tiras, além de haver um outro personagem fanático pela música de Ludwig Van Beethoven, a exemplo do pianista Schroeder.


LIL' FOLKS: O "EMBRIÃO" DA TURMA, JÁ COM CHARLIE BROWN E SEU CACHORRO, ENTÃO SEM NOME.

Lil' Folks foi publicada entre 22 de junho de 1947 e 22 de janeiro de 1950. Para não ser confundida com obras da história em quadrinhos como Lil'Abner (criação de Al Capp conhecida, no Brasil, c…